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Contradições na Morte de Cristo?

Os quatro Evangelhos afirmam que foram mulheres as primeiras a descobrir o túmulo vazio de Jesus. Porém, cada evangelista apresenta uma versão diferente dos factos.
Aquela agitada manhã


Em Primeiro Lugar, Diferem na Hora em que tal Aconteceu. 


Marcos e Lucas dizem que foi no Domingo de manhã, ao nascer do sol: «De manhã, ao nascer do sol, muito cedo, no primeiro dia da semana» – Mc 16,2; «No primeiro dia da semana, ao romper da alva» – Lc 24,1. João também diz que foi «no primeiro dia da semana», mas «logo de manhã, ainda escuro» (Jo 20,1). E Mateus diz que foi no Sábado à noite: «terminado o Sábado, ao romper do primeiro dia da semana» (Mt 28,1).


A Segunda Diferença Refere-se ao Número de Mulheres que Foram ao Sepulcro. 


Para João foi apenas uma: «Maria Madalena» (20, 1). Para Mateus, duas: «Maria de Magdala e a outra Maria» (28,1). Para Marcos, três: «Maria de Magdala, Maria, mãe de Tiago, e Salomé» (16, 1). E para Lucas, um grupo: «as mulheres que tinham vindo com Ele da Galileia» (23, 55).


Tão-pouco existe acordo sobre o motivo por que foram ao sepulcro. Segundo Marcos e Lucas, foram ungir o cadáver com «perfumes» (Mc 16,1; Lc 24,1). Segundo Mateus e João foram apenas «visitar» o sepulcro (Mt 28,1; Jo 20,1).


O Anjo que se Desdobra


Uma quarta diferença refere-se a como se abriu o túmulo. Segundo Mateus, quando as mulheres chegaram houve um terramoto, e o anjo do Senhor desceu do Céu e abriu a entrada do túmulo (Mt 28,2). Pelo contrário, Marcos e Lucas dizem que a pedra já estava rolada quando as mulheres chegaram (Mc 16,4; Lc 24,2). E João diz que a pedra não só tinha sido rolada, mas “tirada”, isto é, tinha desaparecido do lugar (20,1)!


Também diferem sobre o personagem celeste que as mulheres encontram no túmulo. Para Marcos era um jovem (16,5). Para Mateus, um anjo (28,5). Para Lucas, dois homens (24,4). E para João, dois anjos (20,12).


Nem sequer há acordo sobre a mensagem que este dá às mulheres. Segundo Marcos e Mateus, diz-lhes que Jesus ressuscitou e que os discípulos devem ir à Galileia para o verem (Mt 28,5-7; Mc 16,6-7). Segundo Lucas, só lhes diz que Jesus ressuscitou, mas não que devem ir à Galileia (Lc 24,5-7). E em João os anjos não anunciam nada: permanecem mudos no sepulcro; o próprio Jesus em pessoa é que mais tarde anuncia a Maria Madalena a sua ressurreição (Jo 20,15-17).


Finalmente, os evangelistas divergem sobre a reacção das mulheres. Em Mateus e Lucas elas foram cheias de alegria contar a notícia (Mt 28,8; Lc 24,9). Em Marcos, fugiram espantadas do sepulcro e não contaram nada a ninguém (16,8). Em João, como os anjos não dizem nada a Maria Madalena, ela, depois de ver o sepulcro vazio, corre a anunciar o roubo do cadáver (20,3).


Para que o Sol seja Testemunha


Com versões tão diferentes sobre os factos da manhã de Páscoa, torna-se impossível compor um relato coerente. Porquê estas diferenças? O que é que sucedeu realmente no dia da ressurreição de Jesus?


As discrepâncias que encontramos indicam-nos, desde logo, que os seus autores não pretenderam transmitir uma crónica histórica dos acontecimentos, mas que cada um adaptou a informação que tinha à sua própria intenção teológica, para transmitir uma mensagem aos seus leitores.


Comecemos por analisar o evangelho de Marcos (16,1-8). Segundo ele, as mulheres foram ao sepulcro «ao nascer do sol». Provavelmente, Marcos não conhecia a hora real a que elas foram ao túmulo, mas quis apresentar uma cena simbólica. De facto, ele já tinha dito que, quando Jesus morreu, uma grande escuridão caiu sobre toda a terra (Mc 15,33). Agora que Ele ressuscita, diz que o sol se ergueu sobre a terra. Trata-se da luz de um novo mundo que está a amanhecer; de uma nova era, embora as mulheres do sepulcro ainda não o sabiam.


Para Marcos, as mulheres que vão ao sepulcro são três. Porquê? Porque, assim como Jesus tivera três discípulos preferidos (Pedro, Tiago e João), e que ao morrer o Senhor tinham fugido e o tinham abandonado, agora coloca três mulheres que permanecem fiéis a Jesus, como substitutos daqueles discípulos que o deixaram. Por isso as três estão no dia da sua morte (15,40) e no dia da sua ressurreição (16,1).


Fugiram Cheias de Medo


Para Marcos as mulheres foram ao túmulo «para embalsamar» o cadáver de Jesus. Ora, isto é estranho. Primeiro, porque dá a entender que Jesus foi mal sepultado, sem todos os requisitos dos costumes judaicos. E segundo, porque três dias depois não fazia sentido ungir um corpo que já tinha começado a decompor-se. Porém, o que Marcos quer destacar com isto é que Jesus estava realmente morto. Para que mais tarde, quando lhes disser que Ele ressuscitou, os seus leitores não pensem que se tratou de um engano daqueles que o sepultaram.


Em Marcos, as mulheres encontram no sepulcro um jovem sentado à direita e vestido de branco, que lhes diz que Jesus ressuscitou e que os discípulos devem ir até à Galileia para o verem. Quem é este jovem? Trata-se de um personagem simbólico, que de algum modo representa o próprio Jesus na sua nova forma de vida. Por isso representa-o como jovem (a eterna juventude que a ressurreição dá), vestido de branco (a cor da vida eterna), e sentado à direita (como Messias glorioso).


Marcos termina de maneira insólita: as mulheres fogem assustadas e não contam nada a ninguém. Porque deixa Marcos a angustiosa sensação de que não se “pregou” a ressurreição? Talvez para chamar a atenção algumas comunidades cristãs que, por medo ou negligência, tinham abandonado a tarefa de pregar a ressurreição, e punham assim o futuro da fé em risco.


Com Guardas à Porta


Dez anos depois de Marcos, Mateus escreve o seu evangelho, fundamentando-se nele. Mas, como os seus leitores eram de origem judia (e não pagã, como os de Marcos), Mateus fez algumas alterações para adaptar melhor a sua mensagem à mentalidade judaica.


Em primeiro lugar, não diz que as mulheres foram ao sepulcro no domingo pela manhã, mas no sábado à noite. Porque, para os judeus, a Páscoa antiga, na qual Deus libertou o povo de Israel da escravidão, tinha sido durante a noite (a noite do Êxodo). Portanto, a nova Páscoa, na qual Jesus liberta o seu povo da escravidão do pecado e da morte, também devia suceder durante a noite.


Também corrige Marcos quanto ao número de mulheres. É que Marcos tinha tido uma pequena desatenção. Tinha colocado três ao pé da cruz (Mc 15,40). Mas depois disse que só duas contemplaram o enterro (Mc 15,47). E volta a referir três na ressurreição. Para Mateus isto interrompia a cadeia sólida e credível das testemunhas, importante para a mentalidade judaica dos seus leitores. Por isso só colocou duas mulheres a ir ao sepulcro, as mesmas que assistiram ao enterro (Mt 27,61).


Para Mateus, as mulheres não foram para ungir o corpo de Jesus, como diz Marcos. Era inconcebível para um judeu, que o enterro estivesse mal realizado. Mas, além disso, porque Mateus tinha contado que uns guardas romanos velavam a entrada do sepulcro, o qual, tornaria impossível qualquer tentativa de entrar onde se encontrava o corpo. Por isso preferiu dizer que as mulheres foram “ver” o sepulcro.


Os Cinco Fenômenos


Enquanto Marcos tinha dito que as mulheres encontraram o sepulcro aberto, Mateus diz que presenciaram o espetáculo impressionante da sua abertura: «Nisto, houve um grande terramoto: o anjo do Senhor, descendo do Céu, aproximou-se e removeu a pedra, sentando-se sobre ela» (28,2). Com isto, Mateus quis mostrar que Deus tinha rolado a pedra (coisa que não estava claro em Marcos). Por isso, no túmulo não aparece um “jovem” (como em Marcos), mas “o anjo do Senhor”, que na Bíblia simboliza o próprio Deus.


Mas, porque relata Mateus assim a abertura do túmulo? Porque já antes tinha contado que, ao Jesus morrer, se tinham produzido cinco fenómenos: 1) escuridão; 2) terramoto; 3) movimento de pedras; 4) túmulos que se abrem; 5) mortos que ressuscitam (Mt 27,45-53). Era um modo de dizer aos leitores que a morte de Jesus dava início a uma nova era. Por isso agora, quando Jesus ressuscita, Mateus volta a contar que sucederam estes cinco fenómenos (escuridão, terramoto, movimento de pedras, um túmulo que se abre e um morto que ressuscita), para recordar que os novos tempos começaram.


Finalmente, Mateus muda a reacção das mulheres. Estas não fogem espantadas e em silêncio (como em Marcos), mas, «afastando-se rapidamente do sepulcro, cheias de temor e de grande alegria, as mulheres correram a dar a notícia aos discípulos» (Mt 28,8). Porque Mateus vai dizer em seguida (coisa que Marcos não faz), que «os onze discípulos partiram para a Galileia» para verem o Senhor (v.16). E para isso era necessário que as mulheres lhes tivessem transmitido a mensagem. Se não, como se teriam eles informado de que o deveriam ver ali?


Feitos por elas, não Comprados


Ao mesmo tempo que Mateus, Lucas escreve o terceiro evangelho. E embora também conhecesse o escrito de Marcos, fez-lhe as suas próprias modificações para o adequar aos seus leitores, que eram de origem grega.


Antes de mais, diz que as mulheres que vão ao sepulcro não são duas, nem três, mas um grupo numeroso. É que ele, escrevendo para um ambiente grego (donde a mulher era muito mais valorizada que entre os judeus), procura mostrar a grande estima de Jesus pelas mulheres da sua época. Por isso á o único a dizer que Jesus tinha, além dos seus discípulos, um grupo de mulheres que o acompanhavam desde a Galileia, e que colaboravam com Ele (Lc 8,1-3). Todas estas mulheres são as que, segundo Lucas, presenciaram a crucifixão (Lc 23,49), assistiram ao seu enterro (Lc 23,55), e se informaram da sua ressurreição.


Lucas também diz, como Marcos, que as mulheres foram ao sepulcro para ungir o corpo de Jesus. Porém, ao contrário de Marcos, não “compraram” os perfumes, mas “tinham-nos preparado” pessoalmente. É outra característica do evangelho de Lucas: destacar sempre as atitudes amorosas e de ternura, tanto de Jesus para com os outros, como dos outros para com Jesus.


Descartar qualquer Fantasia


Enquanto em Mateus e Marcos é um mensageiro celeste que avisa as mulheres de que o sepulcro está vazio, em Lucas as mulheres comprovam-no pessoalmente e só depois aparece o mensageiro celeste para lhes explicar o sucedido. Este pormenor era importante para os leitores gregos de Lucas. De facto, estes acreditavam que às vezes, nos cemitérios, a gente podia ter visões subjectivas da alma do defunto ali sepultado. Por isso Lucas quis deixar claro que as mulheres, antes de nenhuma “visão” lhes ter dito qualquer coisa, tinham comprovado pessoalmente a ausência do corpo.


Talvez também por isso, Lucas não coloca um jovem junto do sepulcro (como Marcos), nem um anjo (como Mateus), mas «dois homens», para que os seus leitores não pensem que as mulheres tiveram qualquer visão subjectiva e fantasiosa da “alma” de Jesus.


Mas, a mudança mais importante feita por Lucas foi nas palavras destes dois homens. Não devem ir à Galileia ver Jesus (como em Mateus e Marcos), mas vê-lo-ão apenas em Jerusalém e nos seus arredores. Porquê? Porque, como dissemos no número anterior desta revista, para Lucas, Jerusalém é a cidade sagrada por excelência, e todos os grandes acontecimentos do seu evangelho sempre têm lugar ali. Portanto, também ali deviam ter lugar todas as aparições de Jesus ressuscitado. Nenhuma na Galileia.


Finalmente, Lucas diz que quando as mulheres deram a notícia a Pedro, este correu ao sepulcro para comprová-lo. Lucas, pois, é o primeiro a contar que um homem também visitou o sepulcro de Jesus vazio. Quis garantir, assim, aos seus leitores gregos, que tinham dificuldade em acreditar na ressurreição, que isso do túmulo vazio não era apenas conversa de mulheres, mas que também um homem o tinha podido comprovar.


A Pedra que Desaparece


O evangelho de João foi o último a ser escrito (cerca do ano 100). E também dá a sua versão própria dos factos, a mais breve de todas. Segundo ele, naquele dia só vai ao sepulcro Maria Madalena. É pouco provável que qualquer mulher fosse sozinha, e de noite, a um lugar tão desonroso, onde se faziam execuções públicas, e nos arredores da cidade. Mas vê-se que João omitiu de propósito as outras mulheres. Porque, quando a Madalena dá a notícia a Pedro, deixa escapar: «o Senhor foi levado do túmulo e não sabemos (plural!) onde o puseram» (Jo 20,2) Porque motivo João menciona apenas a Madalena, quando inclusivamente antes (19,25) tinha dito que ao pé da cruz havia várias mulheres com ela? Talvez porque, na época em que ele escreve, a Madalena tenha sido transformada na grande mensageira e testemunha privilegiada da ressurreição do Senhor, e João não queira diminui-la com a presença de outras mulheres.


João diz que ela vai ao sepulcro quando ainda estava escuro, como Mateus. Mas por outro motivo. No seu evangelho, as trevas são um símbolo da cegueira espiritual (Jo 8, 12). E como nem a Madalena, nem Pedro, vão acreditar ao ver o túmulo vazio, tinha que ser de noite.


Ao chegar, Madalena descobre que a pedra foi «tirada». Os outros três evangelistas diziam «movida», isto é, posta ao lado. Mas João usa o verbo grego “tirar”, no sentido de “eliminar”, querendo significar que desapareceu qualquer obstáculo capaz de impedir a Vida; que, para o crente, já não existe mais morte.


João termina o seu relato dizendo que a Madalena, «correndo, foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo, o que Jesus amava», e que ambos foram ao sepulcro comprová-lo (Jo 20,2.3). Agora são dois homens que aparecem como testemunhas daquele facto. E algo mais: «o outro discípulo (…) viu e começou a crer» (Jo 20,8). É a primeira vez que alguém, vendo apenas o túmulo vazio, e sem ninguém lho explicar, crê na ressurreição.


O Apuramento dos Factos


Que sucedeu exactamente na manhã de Páscoa? É difícil sabê-lo, porque os evangelistas não pretenderam traçar um quadro histórico dos factos. Mas é possível supor assim os factos centrais daquele dia:


No domingo pela manhã (não no sábado à noite), algumas mulheres foram ao túmulo do Senhor, talvez para chorar segundo o costume judaico (não para ungir o corpo). Estando ali, tiveram uma experiência da ressurreição de Jesus impossível de exprimir com palavras humanas, tornando-se, deste modo, as primeiras a perceber que Jesus estava vivo.


Entretanto, os discípulos já não estavam em Jerusalém. Após os acontecimentos de Sexta-feira Santa, e passada a Páscoa, teriam regressado para a Galileia, donde eram todos, pois já não tinham nada que fazer na capital. E lá, na Galileia, tiveram a sua própria experiência de Jesus ressuscitado. Então regressaram a Jerusalém, onde verificaram que as mulheres tinham vivido uma percepção semelhante.


O Momento da Credibilidade


Pela sua parte, cada evangelista procurou destacar o que nestes factos era mais importante para a fé. Assim, Marcos quis ensinar que Jesus tinha realmente morrido, estava vivo outra vez, e na Galileia (lugar da vida diária, do trabalho quotidiano) era possível encontrá-lo novamente. Mateus quis sublinhar que a morte e ressurreição de Jesus marcam o início de uma nova era, os últimos tempos anunciados pelos profetas. Lucas quis dizer que a morte e ressurreição de Jesus, a partir de Jerusalém, inauguram o tempo da Igreja, e que os discípulos deviam continuar com a obra do Ressuscitado. Finalmente, João quis ensinar que, com a ressurreição de Jesus, para o crente já não há mais morte. Que esta foi eliminada. Agora é a Vida quem se apodera do coração daquele que tem fé.


Mas, numa época em que a mulher não contava para nada, não era valorizada e nem sequer podia ser testemunha num julgamento (pois era considerada pouco credível pela sua tendência para o mexerico), os quatro evangelistas coincidem em que foram algumas mulheres as primeiras a receber o encargo de proclamar a notícia da ressurreição.


O que lhes foi pedido, é que procurassem a forma de se tornarem credíveis.


E elas cumpriram-no. Hoje, graças a elas, milhões de cristãos acreditam na ressurreição do Senhor. É o que o mundo espera da Igreja: que seja credível como aquelas mulheres o foram. Para que, no meio de tanta mentira e de notícias enganadoras, o mundo aceite a Boa Notícia de Jesus.









Autor: Ariel Valdés Tradução: Lopes Morgado

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